A BÊNÇÃO MESTRE DUCA

Desde que deixou a Marinha de Guerra, Manduca Pinto, vivia muitas vidas numa vida só. Lutando capoeira, metido em alguma confusão ou bebendo suas cachaças que lhe deixavam por dias e dias deitado, vencido pela ressaca no fundo de uma rede.

Por isso, amanheceu aquele dia, lembrando-se de algumas noites atrás, quando conheceu Joana Beija-Flor, morena bonita da região do Gama, agora morando na boate Imperial. Até o nome dela lhe causou reboliço. Ainda pensou em perguntar se era nome de “nascença” ou apelido, desses que a família põe, mas não teve dúvida ao vê-la sorrir. Os dentes eram alvos como a neblina nas primeiras horas do dia. Beija-Flor só podia ser por causa daquele sorriso que clareou todo o salão, assim que ela entrou , e desmantelou o corpo e a mente dele, feito febre de garimpo.

Tentou almoçar, mas a ressaca continuava, então deixou o prato na mesa. Manduca voltou para a rede novamente e cochilou, suando friezas e fraquezas. Acordou já no fim da tarde, com a cabeça ainda doendo, pela voz de Marcionílio chegando em sua carroça. Parou próximo a porta de entrada e assobiou como sempre fazia. De carona trazia Mingau Grosso, que pediu ajuda para descer, tentando engomar com as mãos seu terno machucado e encardido. Os dois se dirigiram para a janela do quarto onde Manduca ensaiava se levantar.

– Isso lá é hora de um combatente acordar ? – Perguntou Mingau Grosso, com hálito de cachaça – Um capoeirista como tu, não pode baixar a guarda nunca, mestre. Berimbau estranha silêncio de tantos dias.


– Meu companheiro, aqui nesta cidade nunca perdi uma briga. Mas essa dona, me derruba toda vez. É martelo, cabeçada, e meia-lua, até que me joga no chão, mas antes dela acabar comigo, eu acabo com ela – Respondeu Manduca sorrindo, se referindo a garrafa de cachaça vazia ao pé da cômoda.


– Vamos homem se levante, que estamos indo lá na beira do rio. E tu sabe que para ressaca, não há como água. Ainda mais desse rio – Convidou Marcionílio espiando o urubu.

Ele se levantou, ainda trôpego, pegou a camisa, o berimbau, e o caxixi, e lá se foram os três em direção à Matriz. Benzeram-se em frente à igreja Matriz, e desceram a ladeira.

– Marcionílio, esse teu urubu tá cada dia maior! – Afirmou Mingau Grosso, brincando com o bicho empoleirado na tábua da carroça, sério, como um segurança vestido de preto – Daqui a pouco tá puxando a carroça no lugar do jumento.

Quando a noite caiu, os três ainda estavam na beira do rio, esquecidos do tempo. Foi Marcionílio que viu aquele homem sair das sombras, e se dirigir para onde eles estavam. Chapéu na cabeça, camisa aberta, e peixeira na cintura. Nem chegou, e feito rajada de vento cortou a conversa:
– É tu que é Manduca Pinto?
– Sou ele, sim. Se abanque, companheiro… – Mas não teve tempo de continuar, o homem avançou esbravejando já com a peixeira rebrilhando na escuridão.

Manduca, tinha a leveza de uma bailarina que se calça, mas os pés eram duros como um coturno. Avançou, e se desviando da lâmina cortando o ar, deu uma Benção. Um chute frontal com a sola do pé, acertando o peito do desconhecido. Era um tal de Zé Coruja, ex-marido de Joana Beija-Flor, e que tinha jurado vingança a qualquer homem que se deitasse com ela. Há dias procurava por Manduca, enfim o encontrou, num triste fim de desencontro.

Os três subiram na carroça e deixaram o homem ali no chão que ficou com os olhos e a boca aberta, sem nunca mais poder ver ou dizer palavra alguma. Mais frio que ele, só a água do rio que descia serpenteado pelos campos. As estrelas fizeram vigília, e o vento, vindo das bandas do mato azul, entoou incelências há muito esquecidas.

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Conto dedicado a Ciro Santos, Jairon Reis, e Quiriri, meu afilhado, todos capoeiristas e herdeiros de mestres, como Manduca Pinto que viveu em Pinheiro no século passado. Suas almas e corações vibram, corda de berimbau. Mingau Grosso, Marcionílio e seu urubu também existiram, e continuam a existir.

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