O SÉTIMO NASCIMENTO

Foi no primeiro dia do nono mês de gravidez da minha mãe, logo de manhã cedo, que ouvi os barulhos do mundo vindos de fora. Ainda ali, guardada e sem nunca ter visto ou ouvido, foi que me espantei com o latido do cachorro da nossa casa. Depois muitas vozes que com o tempo aprendi a distinguir. Ora do meu pai, ora da minha avó ou das minhas irmãs. Eu estava por nascer e me esperavam com ansiedade e receio. Foi pela voz da minha avó, com a lamparina suspensa, benzendo a barriga da minha mãe que descobri que o meu nascimento também transpirava medo:

– E se for menina, o que vamos fazer?

– Não será, minha mãe. Confiemos em Santa Margarida, protetora das grávidas – Mas a minha avó, mulher vivida e sabedora das coisas, disse friamente como se fosse o vento vindo do mato azul, distante, logo por trás dos campos:

– Teu sangue frutifica fêmeas. Nem a macheza do teu marido é capaz de diluí-lo. Não há tronco maciço, todos racham. Veja como só tenho netas – E ouvi os nomes das minhas seis irmãs: Dorotéia, Divinéia, Divina, Domitila, Dária e Dalva.

Papai até então calado, parou um pouco de fumar nervoso, e cuspiu seus medos pela janela onde o rio se abria:

– Como será a nossa vida se for mulher? Qualquer pessoa da Baixada sabe que, quando um casal têm seis filhas, a última e sétima se transformará em curacanga.

Na noite em que nasci, a nossa casa estava cheia de gente. Não parecia um nascimento, mas um velório. O silêncio era ensurdecedor reverberando nas paredes de barro e nenhum sapo ou grilo ousava quebrá-lo. As pessoas se olhavam, mas não tinham coragem de falar. Tomavam café, uma xícara atrás da outra, por não ter o que dizer. Até a minha madrinha inventou doenças e, o meu padrinho pescarias para não ir em nossa casa.

Mamãe deitada na cama e cada vizinho que chegava trazia um santo. Até que as dores cresceram, e comecei a me mexer. A parteira Úrsula com terços no pescoço, e rezando sem parar, pedia toalhas e lamparinas mais perto, e encerrava sempre com aquele verso que me atravessou durante toda a vida:

“Senhor, Jesus Cristo,
Conhecedor de todo coração,
Não traga a sétima filha,
Mas a macheza de um varão”.

Quando meu chorou ecoou pelo quarto e a parteira viu entre as minhas pernas, falou como quem se despede:


– É mulher…

Desde esse dia quase ninguém brincava comigo, só meu pai, minha mãe e minha avó. Com o tempo, envelheci com vovó no quarto. Não sentia gosto em ir para rua brincar com as outras crianças. Até a fumar cachimbo ela me ensinou, e disse que “As fumaças que a gente sopra vão lá para cima e viram nuvens. Por isso, que sempre chove, são elas querendo voltar”. Ficava vigiando para ninguém ver, e se eu tossia, ríamos juntas. Gostava mais da velhice que da meninice.

Assim íamos guardando segredos no mesmo quarto e em todas as noites. Até o dia em que ela fingindo estar com sono, se embrulhou dos pés à cabeça, e disse que eu poderia ir, mas que voltasse antes do amanhecer. Então, eu saí pela janela e distraída pelos campos vi pescadores perdendo a fala e caçadores tremendo ao me verem passar. Curacanga que eu era, desde esse dia brincava a madrugada inteira pela Baixada. Quando voltava cansada para casa, encontrava sempre a minha vó debruçada na janela, olhos de quem perdeu o sono e voz de calmaria:

– Isso são horas da minha neta chegar? – E conversando esperávamos logo o dia amanhecer, com os galos acordando os quintais.

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