DOS SOTAQUES DO AMOR, BEM SABE SÃO JOÃO.

– Tu não me ama! – Disse Maria dos Lençóis, toda manhosa, vestida de índia. Sentada naquela palmeira caída, fingia espiar o braço de mar por onde os barcos saíam para a pescaria.

– Cumo não? Arrepara cumo inté boi eu fiz pra ti, Maria. – Retrucou tristonho Zé Miolo, logo após apitar para o boi descansar. Do mar soprava um vento frio, que percorria todas aquelas ilhas de Cururupu.

– Ah, Zé, mas é um boi caga terreiro. Queria era um boi bunito cum mais pena e fita colorida. Só tem três matraca e um pandeirão. Não tem zabumba, nem orquestra…Olha aí, nossas roupa de índia, não tem quase nem pena.

– Mas Maria tu viu a luta que foi pra conseguir essas duas galinha, o trabalho que deu pra depenar na água quente e depois butar pra secar. E se não fosse Dona Santinha me dar o saco dela, cheio das penas que guarda pra coçar o ouvido, eu ia ter que roubar mais uma galinha.  Mamãe mermo me disse zangada, que o meu boi não ia acabar cum a criação dela. E sobre esse monte de coisa que tu dizendo, num dá certo. Adonde que já se viu, misturar os sotaque tudinho num boi só?

– Quando se ama, tudo faz sentindo.

– Eita, Maria que tuas palavra me amolece, mais do que sol de pescaria. Mas tu sabe que isso é caro, né? Adonde que vô achar isto tudinho, aqui nestas ilha perdida? Pra cá, inté os barco tem preguiça de vir. Olha aí o tamanho desse mar! Duvida que se Moisés olhasse, inté ficava cum medo?

– Tu já tá cum tuas ideia? Rum hum, olha que os anjo tão tudo ouvindo. E Zé arrepara cumo nosso batalhão só tem bêbado. Corvina não dá conta de bater as matraca. Sururu parece que é surdo, bate sem ritmo que a gente até se intrapalha nos passo. Chico Ostra parece que tá morrendo, bate desconsolado. E quando voltar, olha bem cumo a gente nem ouve o som do pandeirão. Arraia não tem mais força pra esmurrar o couro. Só se levantou da rede hoje por milagre, já tem quase cem anos.

– Mas o que posso fazer?  Seria inté uma ofensa pedir as matracas emprestada e dar para outros tocar. Arraia coitado, sabe que é a última vez que toca um pandeirão, aliás que tenta tocar. O tanto que encomendou esse couro de cabra para botar na armação. Num seria também justo, despois de tudo pronto, chamar outro pra bater. E as tuas amiga também reclamaram que tem pouca pena nas roupa?

– Não, elas só comentaram que podia ter mais. Mas eu te defendi, disse que a gente era índia, e não caboco-de-pena. Elas devio agradecer, né? Ninguém convida elas para ser índia. Zé e que pressa foi essa que nem a estrela na testa do boi tem? Eu te disse que vovô tinho um papel de embrulho bunito, e que dava certinho pra fazer a estrela. Mas tu no corre-corre não se alembrou.

Quando voltaram para a roda, após o descanso. O boi saiu dançando e cantando pelas areias brancas da ilha. Zé Miolo, suado por dentro da armação, foi quem primeiro viu aquela clarão por cima da morraria, em seguida todo o batalhão.

Uma estrela cadente, que ouviu toda a  história, desembestou-se lá de cima num rastro de luz sobre a ilha. O batalhão espantando, viu quando ela foi se aproximando e se tornando cada vez menor, até atingir a testa do boi, onde se fixou. E ali irradiando um brilho bonito, tão branco quando a lua refletindo nas areias, ordenou que o boi seguisse. O batalhão alegre se pôs a gritar, numa confusão de sotaques, e rumou para dentro da madrugada, sem que ninguém percebesse que o dia havia desistido de amanhecer.

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Boi pequeno e onde os brincantes não se enfeitam. Muito comum para as bandas de Cururupu e Guimarães. Dança apenas entre 11 e 12 de junho, e morre véspera de São João.

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