MÃE ETERNÂNCIA

Enquanto todo mundo nasce puxado pela cabeça, ela aflorou da mãe pelas pernas, como que sem curiosidade de ver as coisas do lado de fora. Demorou a falar, não sentia o gosto das palavras, e caminhou quando ninguém mais acreditava que pudesse pisar as areias e seguir em alguma direção. Mas depois disso, é que vieram os maiores espantos.

Envelheceu lendo o mar, ouvindo o vento e o rastejar das dunas, a migração dos cajueiros e coqueiros, e guardando uma por uma as histórias que ouvia. Como todo mundo morria antes dela, foi ficando, ficando, ficando… Até que ao vê-la, os que nasciam, não sabiam mais os seus graus de parentesco com aquela senhora. Até seu nome já não fazia muito sentido, e lhe rebatizaram: Mãe Eternância!

Bastava a lua despontar sobre a morraria, que o povoado fazia um círculo à sua volta, ,para ouvir as histórias. Tinha a voz tão serena, que se confundia muitas vezes, às brisas que brincavam entre a terra e o mar.

– Estão vendo aquele cajueiro? – Perguntou apontando para o cajueiro velho, que cochilava ao lado do terreiro de Domingos Preto – Ele está ali para descansar, pois vem de muito longe. O conheci ainda do outro lado do povoado, com os pés quase dentro do mar. Mas foi subindo duna por duna, até que chegou ao lugar em que está. Quando lhe perguntei para aonde ia, respondeu que quem anda pela ilha não busca destinos.

– Mãe Eternância, e o que faz aquele barco ali, tão distante sobre as dunas? – Perguntou uma mocinha, com a curiosidade a brincar dentro daqueles olhos castanhos.

– É resto do primeiro dilúvio que engoliu quase toda esta ilha. Alguém aqui se lembra de Leocádia das Águas? – E mascou mais um pouco do fumo, enquanto aguardava alguma afirmação. De repente, sorriu da bobagem que havia dito: Como alguém ali se lembraria da velha, se nem ela mesma a conheceu, mas apenas ouviu falar? Por isso continuou – Pois é, foi ela quem começou com essa história de que a ilha seria inundada, assim que soube que um pescador havia acertado de raspão a estrela na testa de Dom Sebastião. Disse que as nuvens estão com formas e cores estranhas. E por mais que os moradores olhassem para o alto, dia e noite, procurando algum sinal, nada era notado. E Leocádia insistia apontando para o alto: Vejam como as nuvens estão todas em formas de barcos! Em mesmo de uma semana tudo será varrido deste lugar. Dom Sebastião não morreu, mas se enfureceu. Não veem que até as areias estão ganhando altura por dentro do vento?

O certo é que os moradores e bichos estavam todos dentro do barco, quando começou o reboliço de relâmpagos e trovões. Então, as nuvens foram sendo retorcidas, e o céu desabou de uma vez, em tempestade nunca vista. E tudo foi sendo engolido durante dias. Já começava a preocupação com água para beber e comida, quando cessou.

Um por um foram saindo do barco.  Do povoado restara apenas aquele pedaço de duna lá no alto e um cajueiro, o resto era um mar assustador. Foi Leocádia das Águas, que ao se encostar no cajueiro para descansar, sem saber o que fazer, ouviu ele dizendo:

– Enche as mãos de areias e solta no ar, e o vento fará o resto.

Ela atendeu, e quando soltou as areias, viu que elas caiam sobre o mar, transformando-o em pedaços de areia e mangues novamente.

– Mas é aquele cajueiro ali, Mãe Eternância? – Quis saber um pescador.

– Não.  Meus avós diziam que esse cajueiro atravessou o braço de mar, exilou-se dentro do mangue. Leocádia das Águas era a única que lhe visitava, até o dia em que não voltou de lá. A procuraram por semanas inteiras,  e só cessaram quando viram que um outro cajueiro havia nascido ao lado do antigo. E os dois foram se enroscando, galho com galho, folha com folha, raiz com raiz, até que já não se podia distinguir um do outro.

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