OS AMARES

Ali, guardados pelas as sombras da igreja de São Matias, na praça Matriz, em Alcântara, discutiam aquele amor desmedido, e por enquanto comedido:

– Mas eu não posso ser tua, tu sabe disso. Ainda que a minha alma vibre e dance com a tua – Disse decididamente Diná. Negra bonita e coreira das mais desejadas das rodas de tambor. Uma rainha africana, de dentes alvos, cintura fina e quadril, que ao andar, paralisava toda a cidade, e a mergulhava em delírios.- Mas minha nega, eu já te prometi que serei só teu!

– Choramingou Sinhô, quase a lhe beijar os pés. Tocador de tambor, andava sempre com a camisa aberta, e o chapéu a lhe abanar as quenturas. Mas seu nome era maior entre os pescadores, pois nunca temia os ventos, a escuridão ou ondas do mar. Todos desconfiavam que fazia feitiços para aguentar tantos dias em alto-mar, sempre solitário em seu barco de nome “Tapuitapera”.

– Isso tu diz pra todas. Por acaso eu sou surda ou cega, que não ouve, nem vê? Ainda agorinha mesmo na roda de tambor, tu plantou os olhos em Das Dores, que não duvido que ela amanheça com quebranto ou antes mesmo de dormir hoje, já esteja com febre – Retrucou ela, mas ao sentir que havia falado desmesuras, pois também o amava, propôs:

– Então, tu vai ter que me dar uma prova do teu amor.- Peça o que quiser! Que se for sobre a terra eu cumprirei, e se for por riba do mar, eu navegarei. Ela demorou-se ouvindo a roda de tambor ao pé do Pelourinho, de onde haviam saído por alguns instantes. Sentiu o cheiro da fogueira que a brisa trazia e espiou a lua minguante, que nessa noite, era riso fino no céu. Alguns cachorros passaram em cio atrás de uma cadela, e entre latidos, o bando se perdeu lá para a rua de Baixo. Só então, ela disse:

– Durante um ano tu vai navegar entre Alcântara e Guimarães, sem descanso, para te purificar de todas as mulheres que já deitou. Só pode encostar em terra firme para pegar água ou comida, sem nunca demorar ou pernoitar. Amanhã às seis horas da tarde tu parte. Todos os dias estarei te esperando no cais, tu vai me ver, mas não pode me tocar, até tudo encerrar.

Assim aconteceu. Partiu quase na hora exata, num resto de claridade da tarde desbotando nas sombras da noite. Navegou junto à costa, passando pelas praias de Itatinga, Pepital, Mamuna, igarapé do Brito, sempre subindo, até irromper de frente para a baía de Cumã. Depois fazia todo o percurso de volta. Mesmo nas noites de febre e desejo, jamais desistiu. De todas as coisas ruins, vê-la sentada ali num banco de madeira do cais, sem puder tocá-la era a pior.

Numa noite de chuva, espantou-se ao vê-la sentada na proa do barco. Sentiu a fúria dos ventos açoitando fortemente as velas, e agarrou-se nas cordas para não cair. Ela sorria para ele, mas ao chegar mais próximo dela, a viu desaparecendo por dentro da chuva, que engrossara, até se transformar em tempestade. Faltavam ainda seis meses, pois cada dia foi marcado profundamente com uma faca na madeira do Tapuitapera.

No último dia, retornando, a avistou de longe por dentro da madrugada. “Mas como ela pode saber a hora em que eu chegaria”? – Pensou confuso. Estava mais bonita do que todas as vezes. Torço vermelho na cabeça, feito uma revoada de guarás, e a mesma saia de coreira com que haviam se despedido há um ano. Ele nem esperou o barco tocar o cais, mergulhou nas águas e nadou ao encontro dela. Barbudo e queimado de sol se jogou aos seus pés. Ela o abraçou, e sentiu o gosto amargo do mar em sua boca e nos seus olhos.

Os pescadores que passavam nessa noite pela igreja de São Matias, se benziam apavorados, e saíam correndo ao avistarem duas sombras sussurrando entre gemidos, na escuridão das ruínas. Navegavam um para dentro do outro, tragados pelos mares de amares, e nem perceberam que o dia demorou muitos dias para amanhecer.

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