E NA HORA DA VOSSA SORTE, AMÉM!

A sorte é sem vergonha, sem ética e moral. Aprochega-se tanto do santo, quanto do bandido. Assim, vos apresento dois homens de sorte, ou como se diz no interior, que nasceram de cu pra lua.

Ambos tinham o umbigo enterrado na Baixada. Um nasceu às margens do Turi, em Santa Helena. O outro, às margens do Pericumã, em Pinheiro. Profissão? Pistoleiros. Ah, mas as coincidências não param por aí: Eram vesgos e canhotos, como se fossem gêmeos, trocados na maternidade.

Ganhavam a vida com a morte, por isso temidos mais do que búfala parida, por toda a região. Até que o destino os pôs cara a cara, olhos nos olhos, ainda que com tamanha vesguice. Aqui se faz importante nominá-los, para melhor se situar no desenrolar deste rolo. Bigode era doido por tapiaca, e Barbudo por piaba. Isto os define no território de origem, sem ser preciso dizer as cidades, já que os peixes servem como certidões de nascimento. Assim como, se algum deles comesse muçum saberíamos o local de nascimento.

Cumpre dizer aos leitores um detalhe, que talvez estranhem, mas na Baixada ninguém se espantaria. Pois lá ninguém mente, e se mente é por falta do que fazer, pois bastaria contar as verdades: Todas as vezes em que estava em perigo, Bigode sentia os cupins saindo bigode. Já Barbudo, assistia borboletinhas pequenas aflorando da barba.

Mas contemos a história, antes dos esquecimentos e quando ainda resta um pedaço da folha em branco. Um rico fazendeiro contratou Bigode para matar Barbudo. É que o pistoleiro pinheirense havia matado o melhor vaqueiro da fazenda, ao ver o pobre homem atravessando a cerca em busca de um bezerro que jurava ser do rebanho do patrão. Um rico fazendeiro havia contratado Barbudo para matar Bigode. É que o pistoleiro santa-helenense matou o melhor vaqueiro da fazenda, ao ver o pobre homem atravessando a cerca…Nem seria preciso continuar, o leitor já sabe que foi pelo mesmo motivo.

Missões dadas e lá estavam ele num boteco na beira da estrada, no povoado Queimadas. Olhavam-se de longe, esperando melhor o momento, enquanto pediam mais uma cerveja magnífica. Gelada? Mais do que nariz de cachorro. “Daqui de onde estou, posso mata-lo, sem que ele nem veja a bala chegando” – Pensou Bigode. “Posso mata-lo, sem que ele nem veja a bala chegando, daqui de onde estou” – Assegurou-se Barbudo.

Como se estivessem de frente para um espelho fizeram o mesmo movimento. Dedo na gatilho ainda sob a mesa, e tiro certeiro em direção ao outro, assim que os olhos vesgos alinharam. Só não contavam com o abajur de ferro fornido, caindo do cumeeira no meio do salão, poucos segundos antes dos tiros.

Ricochetear! Verbo intransitivo: disparar em ricochete; fazer ricochete. “a bala ricocheteou e não atingiu o alvo”. Esclarecida a palavra, continuemos. Foi isso que aconteceu, as balas ricochetearam no abajur ainda em queda e retornaram nas mesmas direções de onde haviam partido.

De um lado do boteco, Bigode cheio de cupins, morto pelo seu próprio tiro. Do outro lado, Barbudo encoberto de borboletinhas, também morto pelo próprio tiro.

Uma idosa se benze e fecha os olhos dos dois, que parecem espiar a embira puída de onde o abajur havia despencado. No chão, os sangues fazem o mesmo caminho, até que se misturam, na sorte do mesmo destino.

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