DE UMA VEZ, FEITO FRUTA MADURA

A morte bocejou, como se tivesse dormido, e partiu na boca da noite para a casa de Leonara dos Anjos, assim que ouviu prato e colher sendo lavados no girau. A pobre da velha, mal se sentou na porta para pegar o vento frio, que vinha lá da quinta, quando avistou aquela senhora de vestido colorido se aproximando. Além da visível magreza, um guarda chuva preto que mais parecia um namorado, se destacava, enfiado em seu braço.

– Boa noite, minha senhora. Pode ir se abancando, que aqui pode faltar tudo, menos cadeira e mocho.
– Boa noite e muito obrigado Lelê. E como anda a senhora? – Perguntou a morte se sentando, desconfiada com a cadeira torta, sem nenhum equilíbrio. Deitou o guarda-chuva nas pernas, e reclamou da frieza.
A velha demorou, remoendo os pensamentos. Olhou uma vez, depois mais outra vez, mas não reconheceu mesmo a senhora ali ao lado. Por isso, indagou:
– Não leve a mal uma velha desta idade, mas como sabe o meu apelido de infância? É que não estou lhe reconhecendo. Também 90 anos, não são 90 dias, né? – E riu cheia de graça, e sem dentes.
– Eu sou a Morte, Lelê – Te conheço desde o nascimento. Filha de Acácio, capador de porco, e Leonilda, que lavava roupa no povoado. Tua mãe cantava durante todo o serviço no rio, e vivia repetindo “Tristeza do galho é não ter o pio de coruja, do poço e da lavadeira é não ter uma roupa suja”.
– Eita, que a senhora me conhece mesmo. E tem a mente boa como que. Mas o que lhe traz aqui? Não me diga que já é hora da viagem.
– Calma, minha velha ainda não é o seu dia. Há tempo não levo ninguém assim, de repente. Tenho gostado de fazer amizade, tomar um café e prosear na boa da noite. Até a roupa troquei, não percebeu? Aquele vestido preto já estava me dando coceira. Esse colorido pelo menos alegra. Então, é isso. Melhor ir morrendo aos poucos – E puxou um papel amassado do bolso do vestido e pôs a ler – A senhora escolhe o que quer ir perdendo: A visão, a audição, os movimentos da pernas ou dos braços, a fala, ou o juízo?Até então calada, Leonora dos Anjos, retrucou ao ouvir o fim da lista:
– Mas se ficar cega, morando sozinha, quem vai fazer as coisas? E surda? Quem vai ouvir os bichos com fome, e o galo dizendo que já é dia? Sem andar ou poder pegar as coisas é muito triste, né? E falando embrulhado, nem conversar eu posso mais, aqui na porta. Agora, perder o juízo é o pior. Confundir o antes e o depois, o perto com o longe, e a noite com o dia? – E respirou profundamente, esperando alguma palavra da Morte, que continuava desconfiada com aquela cadeira torta – Eu posso trocar ou não?
– Trocar o que minha velha? Se fosse trocar mesmo, seria esta cadeira, que estou vendo ela me botar no chão. A senhora sabe, que osso de velho não emenda.
– Trocar uma dessas coisas que foi lida, por morrer de uma vez. Igual fruta madura, que quando desprega, despenca de uma vez e se acaba no chão.
A morte coçou a cabeça. Assoou o nariz e enxugou no vestido:
– Eita, pingadeira dos diachos. Esse nariz nunca prestou – Respondeu como se não tivesse ouvido a proposta da velha – A senhora falou bonito. Nunca tinha pensando nisso, “a morte é como fruta madura, que quando desprega, despenca de uma só vez e se acaba no chão”. Repare bem o que a senhora está pedindo, depois os parentes ficam me xingando: Ah, Leonora estava na mesa do almoço e tinha botando a primeira colherada na boca. Ah, Leonora nem conheceu o bisneto. Ah, Leonora dormiu, mas não acordou. Morte sem jeito! Morte da peste! Morte sem sentido! Ah, se pudesse matar a morte.


Levantou-se, ainda falando da reclamação dos parentes, e pegando o guarda-chuva enfiou no braço. Interrompeu apenas para se despedir de velha agradecida, e rumou na direção do caminho das areias brancas. A lua nascia e a claridade fina, ainda era chuvisco caindo sobre o povoado.

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